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Escrito por Jovir Filho às 03h28
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Série Contos Breves
No nada em que não se vê...
Os olhos de Fabiana revelavam naquele momento uma necessidade pungente de ser. Num olhar parado, como quem fita o infinito na parede branca amarelecida da sala, concentrava todo seu desejo de perfeição. Neste sem fim de a todo instante, passava horas em conjecturações e assim permaneceria se alguém não a abalasse com um toque ou pai com um safanão. Este sempre fora o jeito de seu pai. Pai estúpido. Mãe submissa. Filhos desvalidos. Eis o meio e toda a história de Fabiana! Um pensar desfavorecido.
Despertara devido a um copo quebrado pelo irmão caçula, que tentava pegar sobre a pia sua colher de um desses desenhos idiotas da televisão. Percebeu-se, de repente, sozinha entre todos ali presente e tirou do bolso detrás da calça uns versos. Leu-os, sussurrando de si para si:
Sem sentir
Descubro o que sinto por você.
Por isso choro.
Porque nada sei fazer.
Não sei como estar — ao teu lado.
Não sei o que dizer — frente a ti.
Não sei o que querer — sempre.
Mas pulsa e sinto,
E isto é incontrolável
E...
E correu-lhe pela face escondida uma lágrima fria que lhe queimava. Esta lágrima era-lhe como uma mão que, ao mesmo tempo que acaricia, tortura, fere, abala. O sofrimento do mundo todo, naquele momento, era somente seu. Ninguém dividia com ela, ninguém queria saber, além dela, do que se passava neste universo tão instável que é o existir pobre aos dezessete anos de idade. O querer é ínfimo diante do que é a realidade. Fabiana queria sumir-se, desaparecer-se, mas isto já acontecia, apenas ela não estava percebendo. Não estava percebendo que apesar de várias pessoas estarem esbarrando-se na cozinha e na sala de sua casa, ninguém a notava ali, sobre a cadeira. Eram apenas ela e os versos e o seu sentimento.
Seu cotidiano era a duras penas que se arrastava, às vezes empurrado por algum benévolo vento mas que logo passa e deixa a sensação de que a felicidade nada mais é do que fumaça, a qual se tenta ainda prender entre os dedos. Não conseguia entender este estado das coisas, nem pensar nos porquês. Sempre que observava a vida ao seu redor percebia irmãos, pais, parentes, vizinhos e conhecidos, com as faces encardidas, roupas cheirando a sujeira e o sorriso estampado sem se saber por quê. São crianças engatinhando sobre a terra e comendo do que acham. São falas que se misturam sem terem conexão no entender. Profusão de cheiros desagradáveis. Profusão de sofreres que se entrelaçam e se cumprimentam. E Fabiana ali, com o sofrer, com o querer sumir-se, com a lágrima, com os versos, com a parede, com o abstrair...
Escrito por Jovir Filho às 01h35
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Série Opiniões...
Um outro especial
A escrita não é qualquer coisa, não é simples decodificação de sons em letras, nem tampouco a simples tradução em palavras daquilo que se pensa. Não! É um pouco e um tanto mais.
Sigmund Freud, em texto intitulado “Escritores criativos e devaneios”, discorre sobre a criação literária e sua relação com a fantasia e exemplifica a capacidade infantil de fantasiar e viajar em sua fantasia sem a preocupação com a realidade e com o mundo que a cerca, por isso a criança é mais livre, menos presa as amarras do mundo real e da cobrança alheia que mesmo não presente faz-se velada. O psicanalista alemão diz que os escritores destacam-se por manterem acesa a fantasia e a desnudarem através da criação literária, pois esta nunca deixa de existir no homem e como exemplo ele cita o jovem que vai fazer sua primeira entrevista de emprego e no caminho perde-se no próprio pensamento, o qual lhe constrói como a pessoa ideal para a vaga que pleiteia, assim como a pessoa ideal para a linda filha do patrão em cuja entrevista o reconhecerá como o genro ideal. Tudo pensado no caminho até esta entrevista. Sonhamos acordados, isto é inegável! Perdemo-nos, muitas vezes, em nossos devaneios, porque isso nos nutre, isso nos tira, ainda que momentaneamente, das agruras cotidianas. A Literatura acaba por prestar este benesse à Humanidade, a tirar-nos do real e a colocar-nos no mundo da fantasia, com a qual nos vestimos no momento em que lemos.
A leitura é um outro especial em nossa vida, por conseguinte, é a escrita um outro também especial, justamente por este papel fantasioso. Dotamo-nos de poder quando lemos e quando escrevemos. No entanto, neste último ato, temos a necessidade de sermos o outro de nossa própria escrita, para que o crivo seja dado de antemão, ou melhor, em primeira mão, sobretudo pelo desnudar que representa o ato de escrever. Temos tanto pudor em expor o que escrevemos quanto temos quando nos despimos. Tememos as imperfeições do corpo. Tememos as imperfeições do corpo de nossos textos.
E o temor com relação à escrita torna-se ainda maior quando percebemos o quanto revelamos de nós nas linhas que escrevemos, consciente ou inconscientemente, explícita ou implicitamente. Em grande medida, a escrita é catarse. Quem não escreve, impede a si mesmo. No entanto, não há forma, não há formato, não há regra, não há fórmula, enfim, nada é pré-definido quando o assunto é a escrita, exceto em provas, de quaisquer naturezas.
Como bem disse Simone de Beauvoir, “escrever é desvendar o mundo”, sobremaneira o mundo que somos nós mesmos.
Escrito por Jovir Filho às 01h16
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Série Textos que refletem
Memórias
Minhas memórias não querem começar, talvez por medo de terem que terminar em algum momento. Isto é fundamento do mundo: começar e terminar, não importando como nem onde. O pensamento enquanto reservado é etéreo, é eterno. Não tem começo, nem fim, porque não é expressão ainda, tão somente é.
O pensar morre tão logo nasce. Treme com suas reminiscências. Abala-se com suas previsões, pois tem que enfrentar o mundo ao seu redor. Infelizmente detalhes são pontinhos que se unem para formar o objeto maior. Pontos disformes, resultados incertos.
A vida começa para mim no ano de 1988, quando completo quatro anos de idade e encerra-se ao final destas memórias. Que bom seria poder lembrarmo-nos de tudo, desde o primeiro vagido. Poderia ter na memória faces patéticas e até idiotas de pessoas pelas quais guardo grande respeito em meu pensar. A loucura do humanista está na velhice e, sobretudo, na criança, porque esta não se dá ainda pelo que o adulto chama por razão. Jamais me conformei, desde que aprendi a pensar autonomamente e construir idéias e opiniões, com o disparate de atribuir aos atos inconseqüentes de adultos idiotas o adjetivo infantil e seus correlatos. A criança tem menos contato com o mundo que o adulto, isto não justifica nenhuma comparação. Como o apontamento erasmiano, tolos são aqueles que atribuem a inconseqüência, a insanidade, a loucura aos gestos da criança. Este é o momento mágico da existência humana: o primeiro contato com tudo e sua pureza. E as pessoas mudam suas vozes e fazem caras de imbecis diante de um ser que pouco confabula, mas que não é idiota também. Pena não me lembrar destas caras!
A vida começa para mim na creche. Minha mãe, abandonada pelo meu pai quando soube que a engravidara, tinha de batalhar arduamente o pouco convívio que tínhamos. Como os desvalidos, muito mais do que os bem-nascidos, foi o mundo que me criou. As mulheres que de mim cuidavam durante todo o dia tinham muitas faces. Quase todas sofridas como minha mãe, batalhadoras.
Minha mãe colocou-me no mundo dez dias após completar seus quinze anos de vida. Sem pai, nem mãe.
....................................................................................................
Escrito por Jovir Filho às 13h41
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Um dedo de poesia...
Ventos...
ventos do norte...
e ventos do sul...
que serenam o que sei de mim
e acenam para um não sei onde,
sem saber por quê.
ventos...
ventos desalmados...
Escrito por Jovir Filho às 13h34
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Série Opiniões
O preço da ignorância
Machado de Assis não tivera formação em psicologia, nem tampouco em psicanálise, que em seu tempo ainda não tinha eclodido, no entanto, ninguém, em toda a Literatura Brasileira, soube penetrar e dissecar a personalidade de nosso povo como ele. Por exemplo, no conto “A Cartomante”, figura a colocação de que “o presente que se ignora vale o futuro”, que tanta profundidade encerra em si que leituras superficiais ou levianas a não compreendem.
Esta mesma frase machadiana é traduzida parcialmente no dito popular de que “o que os olhos não vêem o coração não sente”. Parcial, porque o escritor realista vai mais fundo, uma vez que não se trata de apenas ver, mas de compreender, ou melhor, não querer compreender. E questão como esta é persecutória, perturbadora e, de minha parte, incomoda-me demasiadamente.
Quando de meu ingresso no mestrado em Lingüística Aplicada, da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), fui de certa forma tentado a seguir meus estudos no campo da alfabetização de adultos e convidado a participar do Programa Alfabetização Solidária, no nordeste brasileiro. Sem sombra de dúvidas que é tentador a quem ama as idéias de Paulo Freire trabalhar com uma população como a do sertão nordestino. A pessoa que tentava me seduzir para aceitar narrou a seguinte situação, para demonstrar a importância de um trabalho desta natureza:
“Uma mulher do sertão alagoano, com vinte e poucos anos, e já velha na vida e no mundo, analisa a situação de sua geração de filhos: dos dez que tivera, quatro morreram e seis permaneciam, pois, em sua leitura, Deus deu-lhe os dez, Nossa Senhora quis cuidar de quatro destes”.
Esta é a realidade. Uma mulher destas não “percebe” que a fome pode matar; que a falta de saneamento básico pode matar; que o excesso de filhos aliado ao desmazelo pode matar; que doenças banais não prevenidas podem matar. Falta-lhe o essencial: a informação, sobretudo a informação que leva ao discernimento. E por falta desta, reina a ignorância, que garante o apaziguamento das idéias na vida a se levar — o porvir, o futuro.
Pessoas mais velhas insistem em dizer que antigamente tudo era melhor. Ledo engano! Acontece que ignoram e ignoravam as razões e não se percebia que a morte, por exemplo, era muito mais latente. A questão é que as causas das mortes eram designadas à vontade de Deus. Não se percebe e não se percebia que a expectativa de vida do brasileiro saltou em cem anos dos trinta e oito anos para mais de setenta anos em função não do fortuito, mas do trabalho com a informação, principalmente da medicina, mas também de outras áreas como a nutrição, o saneamento etc.
Ouvi, certa vez, de um médico que dos melhores médicos que surgiu no último século foi o engenheiro responsável pelo saneamento básico. Água tratada previne mortes e aumenta as expectativas.
No entanto, só “enxerga” isto quem é capaz de discernir. E, infelizmente, nossa população é formada por setenta e seis por cento de analfabetos funcionais, em algum nível; o que significa dizer que falta discernimento à população — que exemplifique a política, em que o corrupto de ontem será o eleito no pleito de amanhã.
O mais triste, porém, é que a escolarização em nada contribui para mudar este quadro e as pessoas que podem mudar suas situações desistem, porque, como diz Paulo Freire, saber, conhecer traz sofrimento, pois se sai da condição de não saber para a condição de saber, o que é muita coisa.
A ignorância anda de mãos dadas com a facilidade, que não gosta de sofrer.
Escrito por Jovir Filho às 13h32
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Série Opiniões
Escola: visão social
Muitas coisas em nossa sociedade são tratadas como tabus, ainda que não devessem ter este status. É o caso da escolarização, que é tida como intrínseca ao ser humano, tanto que a legislação nacional prevê processo contra quem não garanta aos filhos o ingresso em escola. Foi ao que assistimos recentemente com relação a uma família que optou por não colocar os filhos no sistema educacional brasileiro.
Será que o Estado está certo?
Será que a família em questão está certa?
A verdade é que vivemos como se a escola fosse a coisa mais necessária de todas. No entanto, não nos questionamos sobre seu papel, sua história e seu conceito.
Na Antiguidade Clássica tínhamos os centros de ensinamento, que se caracterizavam como o que hoje entendemos por escola. Muito alterou-se na forma e, também, no conceito de escola, mas, no formato como a conhecemos hoje, sua história remonta à idade média e, no Brasil, ao século XVIII.
E neste formato, da compartimentagem em disciplinas, de sua parametrização e normatividade de conteúdo, a escola surgiu, justamente, para controlar o que se ensina e o que se aprende. Neste sentido, esta escola, desde os seus primórdios, é uma rotuladora, ou seja, produz em série seres que se classificam conforme sua nota e não conforme o seu conhecimento. No Brasil, a escolarização começa com Marquês de Pombal, apesar de os jesuítas já ensinarem antes deste tempo, porém com outro princípio e outra ideologia. Pombal, com plenos poderes delegados pelo rei de Portugal, determinou muita coisa no Brasil.-colônia; uma delas foi a escolarização, uma vez que o conhecimento transmitido pelas missões jesuíticas poderia ser perigoso ao poder e, ainda, prevalecia nestas terras a chamada Língua Geral, que era a língua predominante formada sobretudo pelo tupi-guarani, mas com marcas do francês, do holandês, do inglês e, não tanto como desejava Portugal, pelo português. Oras, como se governa um povo que não fala a língua do governante?
Esta questão da língua é emblemática e caracterizadora: a educação é uma forma de fazer as pessoas pensarem como você quer que elas pensem.
As escolas atuais são meras continuações disso. Quem quer, realmente, o conhecimento ou corre atrás por conta própria por não ter recursos, ou paga mais para garantir através de meios diversos. Um exemplo, muito interessante, é de um garoto que, no ano passado quando cursava o segundo ano do ensino médio, resolveu prestar o vestibular e a prova do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Neste último, obteve noventa por cento de acertos; no vestibular da FUVEST, foi aprovado com boa margem na primeira fase. Na escola, estava na iminência de ser reprovado, ainda que fosse de um sistema privado de ensino de uma grande rede de escolas. Quem lhe garantiu o conhecimento para o bom resultado nas provas? A escola? Não, a escola estava pronta para reprová-lo, mas seus méritos próprios atestaram o equívoco.
Os grandes sistemas de ensino privado do país estão numa defasagem considerável com relação aos paradigmas do conhecimento atual, mas ganham dinheiro com isso. Enquanto o Estado brasileiro não quer e não imprime qualidade na educação, porque quer apenas rotular os alunos para apresentar dados aos órgãos internacionais; o sistema privado quer lucrar e para isso nada mais sedutor e propício do que a desinformação quanto ao próprio processo educacional, que hoje dá-se pelo analfabetismo funcional. Sistemas de ensino privado tentam mostrar que dotam seus alunos de informação, mas negligenciam o essencial hoje: trabalhar com a informação, uma vez que a informação está em toda parte, independente da escolarização.
Politicamente a escola é uma grande estratégia, assim como economicamente, porque do primeiro propósito, o político, nascem os buracos deixados pelo Estado a serem preenchidos pela iniciativa privada, quando os indivíduos têm como pagar por este suposto preenchimento.
Escrito por Jovir Filho às 13h31
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Série ACUPUNTURA DAS TERMINOLOGIAS
E diz-se “Eu te amo”...
Eu te amo!
E quanto não se usa, em nosso território, esta frase que, de tão sublime possa ser, torna-se banal e, muitas vezes, vazia de sentido, porque sua expressão maior, o sentimento profundo por alguém, acaba por ser nuvem passageira e poderia ter sido expressa por um “oi!”!
Amar não é qualquer coisa. O Amor não é qualquer coisa!
Será que não se trata de mais uma terminologia da qual se esquece ou se desconhece o conceito. Fala-se em amor platônico, em platonismo, será que se sabe o que disse Platão em seu “Banquete” ou em quaisquer diálogos em que tenha tocado no tema Amor?
Repito: o Amor não é qualquer coisa! Não serei eu que definirei ou que conceituarei o que é Amor e, em minha forma de pensar, não será ninguém. Muito já se escreveu sobre o tema, de diversas formas, em diversos gêneros, em variadas linguagens e não há a conclusão.
O que não se pode é esvaziar totalmente a expressão!
Escrito por Jovir Filho às 03h57
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Para variar...
Diz que o Rui Barbosa, ao chegar em sua casa, ouviu um esquisito barulho vindo do seu quintal. Chegando lá, constatou que havia um ladrão tentando levar seus patos de criação.
Aproximou-se vagarosamente do indivíduo, surpreendendo-o tentando pular o muro com seus amados patos. Batendo nas costas do tal invasor, disse-lhe:
— Ô bucéfalo, não é pelo valor intrínseco dos bípedes palmíferes e sim pelo ato vil e sorrateiro de galgares as profanas de minha residência. Se fazes isso por necessidade, transito; mas se é para zombares de minha alta prosopopéia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com minha bengala fosfórica no alto de tua sinagoga que reduzir-te-á à qüinquagésima potência que o vulgo denomina nada.
E então o ladrão disse:
— Ô moço, levo ou deixo os pato?
Escrito por Jovir Filho às 03h52
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Série ACUPUNTURA DAS TERMINOLOGIAS
Das agulhas
Este texto pode ser, se assim o for transformado e considerado, como o primeiro de uma série de textos que, não se propondo a ser uma voz da verdade, visa questionar os conceitos e as definições que povoam o pensamento coletivo através de termos — uma terminologia que nasce, muitas vezes, sem se saber onde, de onde, nem se dizer para onde. Nomeia-se, esta série, como ACUPUNTURA DAS TERMINOLOGIAS, por pretender ser uma série de agulhadas, que podem atingir o ponto nevrálgico no corpo das certezas, como podem equivocar-se. Assim como a acupuntura constitui-se e propõe-se a ser, esta série não é a solução, não é a cura, mas sim prevenção, precaução, talvez até tratamento, em nosso caso, terminológico.
E este tratamento acorrerá através de agulhadas. As agulhas — os textos.
Textos são aqui entendidos como unidades de sentido, constituídos por componente duplo: o texto, sua materialidade propriamente dita, e o pensamento, que o fundamenta e lhe dá forma. Com esta conceituação, tem-se a (pseudo)certeza de que os textos são expressão de idéias, até mesmo do conhecimento, por aliar representação, em nossa sociedade, gráfica e imagem, os conceitos em si, enquanto concepção e forma das faculdades superiores da mente humana.
Desta forma, estes textos virão em doses “homeopáticas”, para que não tenham o excesso, nem se delonguem demais nas discussões propostas, tampouco tenham a vagueza — vaguidão específica, como nomearia Millôr Fernandes — mau ao entendimento mínimo do que se quer expressar. Contudo, pela natureza dialógica de toda enunciação, estes textos apenas terão validade se houverem leitores, ou noutra terminologia, interlocutores, para que assim estabeleça-se a interlocução em si e, efetivamente, possamos chamar estes textos de textos.
Para tanto, este espaço está aberto para quaisquer textos, de quem se proponha divulgá-los.
Escrito por Jovir Filho às 03h28
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um dedo de poesia...
impulsos eletrônicos
uma necessidade
desconhecida de há tempos
cruza a linha da realidade
e faz-se uma confusão
de percepções,
infusão de seres entre
não-seres, que cruzam
a mesma linha da realidade
e os sentimentos
são impulsos eletrônicos
nascidos de pensamentos
que geram palavras
e movem os dedos
do impulso.
sentimentos são
frações de segundo,
o momento em que
o toque do dedo gera
a realidade
que não é a realidade
nascida de velhas,
profundas,
necessidades.
e podemos pensar:
onde está o mundo?
Escrito por Jovir Filho às 03h22
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Série Opiniões
Comunicação eletrônica: distância
Agradeço a sugestão de Eliana, pela escrita deste texto.
Há uma recorrência quando o assunto é avanço tecnológico: a resistência, que podemos nomear, com maior exatidão, por renitência. Esta é responsável pelo efetivo avanço. No entanto, com o passar do tempo os avanços vão sendo incorporados de tal forma, que passam a ser internalizados e considerados como se sempre tivessem existido. A escrita, por exemplo, dificilmente se pensa que ela um dia não existiu, por ser tão natural em nossa sociedade; e, com isso, não imaginamos as sociedades ágrafas que não possuem escrita que hoje ainda existem, a despeito de tanto desenvolvimento tecnológico-industrial.
O filósofo grego Platão, em sua obra, faz uma velada crítica ao uso da escrita, uma vez que esta passava, em seu tempo, a ser tornar recorrente. Em seu modo de pensar, o ser humano, confiando na escrita, deixaria de lado sua capacidade de memorizar, pois confiaria ao texto escrito sua memória. Não estava equivocado neste sentido, pois se em seu tempo as pessoas traziam na memória, por exemplo, a “Odisséia” de Homero, em nosso tempo isso é coisa impensada. Um amigo de Dois Lajeados cidade do interior do Rio Grande do Sul , que estudou comigo, contava que em sua terra natal, com características de vilarejo ainda, de tradição italiana, as pessoas iam para a vindima entoando versos da “Divina Comédia” de Dante Alighieri, com grande propriedade. Tal fato é prova de que a distância da tecnologia tem seus frutos. Nós, porém, estamos submersos na cultura tecnológico-industrial.
Por outro lado, Platão não previu os benefícios da escrita, que, dentre outros, podemos destacar a possibilidade de liberar a mente para desenvolver-se em outro sentido que não o de apenas memorizar, pois passamos a perceber nossa mente como dinâmica.
O cerne, porém, deste texto não é a escrita enquanto avanço tecnológico, mas sim o avanço tecnológico e o uso da escrita em nosso tempo, em nossa sociedade; mais precisamente o uso da comunicação através da Internet. E-mail, MSN, blog, podcast e todos os mecanismos de comunicação eletrônica existentes hoje são uma realidade inevitável. Certo?
Errado!
Os meios de comunicação podem ser vistos como uma forma de aproximação entre as pessoas, sobretudo os que valem à comunicação individual. No entanto, Marcel Proust, escritor francês, valia-se, em seu tempo, das cartas para manter as pessoas afastadas, assim evitava os contatos. Da mesma forma, podemos pensar na Internet, enquanto recurso comunicativo, mais para afastar do que aproximar as pessoas e a isto assistimos cotidianamente. Cada vez mais as pessoas fecham-se em suas casas e tornam-se distantes umas das outras, pensando estar em contato.
Não podemos negar que ferramentas, como o MSN, redimensionam a comunicação. A informação, que antes demorava muito tempo para atravessar de um lado a outro do Estado, hoje vai de um lado a outro do globo terrestre em questão de milésimos de segundo. É fato, também, que muitos contatos antes não feitos, hoje são muito mais possíveis, no entanto, não podemos esquecer a ilusão por trás dessa relação, pois pessoas que não têm discernimento nem coragem suficiente para posicionar-se na vida real, no meio virtual proporcionado pela Internet tornam-se muito mais à vontade, o que é antes uma ilusão. E não são poucos os casos de relacionamentos virtuais que não lograram sucesso na vida real.
Não podemos nos esquecer de que a vida é para ser vivida, em seu estado puro, a despeito de quaisquer avanços tecnológicos. O relacionamento humano é uma necessidade, mas não pode ser permeado pela máquina, que é fria, que não corresponde à realidade e produz apenas fantasias, e, neste sentido, a máquina supre lacunas psicológicas que necessitam antes de serem encaradas na vida do que serem camufladas na virtualidade. Como já dissera Charles Chaplin, “mais do que máquinas, nós necessitamos de humanidade”.
Este avanço tecnológico, redimensionando o uso da escrita, não pode ser encarado como uma verdade unívoca, pelo contrário, necessita da renitência para ser avaliado, pois não pode continuar afastando pessoas mais do que as aproximando.
Não podemos aceitar passivamente o isolamento eletrônico.
Escrito por Jovir Filho às 07h11
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Série Conceitos
Ambigüidade em leitura
Há uma série de especialistas na área da linguagem que se ocupam com a interincompreensão, que é, em linhas gerais, a possibilidade de os interlocutores não se compreenderem na comunicação, seja escrita, seja oral. Muitos fatores contribuem para esta incompreensão e um deles diz respeito à ambigüidade, seja ela de qual ordem for: fonológica, morfológica, sintática ou semântica.
Temos uma ambigüidade quando uma construção textual admite mais de uma leitura, consequentemente, mais de uma interpretação. Assim, a ambigüidade é uma propriedade que possuem diversas unidades lingüísticas (morfemas, palavras, locuções, frases) de significar coisas diferentes, de admitir mais de uma leitura, ao que se chama também por anfibologia.
A ambigüidade é um fenômeno muito freqüente, mas, na maioria dos casos, os contextos lingüístico e situacional indicam qual a interpretação correta. No entanto, estilisticamente, ela é indesejável em texto científico ou informativo, mas é muito usado na linguagem poética e no humorismo, propriamente pelos efeitos que produz. Charges, tirinhas e histórias em quadrinhos valem-se muito deste recurso, para produzir humor.
Em tempos em que a leitura torna-se atividade fundamental em todos os segmentos da atuação humana, conhecer e saber desmontar um texto com ambigüidade é mais do que necessário. Vejamos um exemplo.
Vi um homem na rua com um binóculo.
Quem estava com um binóculo?
Tanto pode ser o sujeito da frase (eu), como pode ser o homem visto. Este é um exemplo de ambigüidade, propriamente por admitir estas duas leituras. E ambigüidades como esta, em determinados contextos, podem prejudicar o que se pretende expressar, pois, como no exemplo, há muito diferença entre dizer que a pessoa que está vendo o homem é quem está com o binóculo e dizer que o homem visto pela pessoa é quem está com o binóculo.
Vejamos a tirinha abaixo e analisemos qual a ambigüidade nela presente e qual o seu efeito de sentido.

Qual fala encerra uma ambigüidade? Qual o papel desta ambigüidade na tirinha?
Trata-se de uma ambigüidade semântico-situacional, pois ativa conhecimentos prévios do leitor, que entenderá, no primeiro quadrinho, com a fala da cachorrinha, que os dois cachorros estão brigando por que querem sair com ela, no entanto é o contrário o que acontece: eles estão brigando porque não querem sair com ela, logo, o perdedor é quem saíra e não o vencedor. A construção textual “Eles estão brigando pra ver quem sai comigo!” admite estas duas interpretações. Por que é semântica? Porque está no campo da construção dos sentidos e não da sintaxe, tampouco da morfologia. Por que é situacional? Porque ativa nosso conhecimento prévio quanto ao tipo de situação retratada e a seqüência desta situação é que conduzirá o entendimento que se deve ter.
Vimos dois exemplos de ambigüidade, no entanto, se nos detivermos no uso cotidiano da língua, perceberemos inúmeros outros contextos em que impera a ambigüidade, fator de interincompreensão, e poderemos pensar sob outro prisma o nosso próprio uso da língua. Um exemplo notório encontra-se nos símbolos fálicos lingüísticos, uma vez que a ambigüidade esconde-se sob o nome de malícia. Palavras, como pinto, perereca, nabo, chupar, comer, passam a ser carregadas de conotação fálica e encerram ambigüidades.
A questão é que usamos a ambigüidade, muitas vezes conscientemente, noutras inconscientemente, mas a usamos. Em certos momentos para produzir sentido distinto, noutros para confundir e, como no caso da publicidade, para ativar conhecimentos prévios, a fim de atrelá-los ao produto ou imagem a que se quer vender.
Escrito por Jovir Filho às 13h44
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Fogo-fátuo
Ao final, somos.
Afinal, somos.
Escrito por Jovir Filho às 12h48
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Série Palavras de que não gosto
Legal
Na forma de pensar as relações no mundo e sua expressão e formulação pela linguagem, acredito na necessidade de significação e, neste sentido, a palavra legal é uma das que mais me incomodam. Pode ser pura implicância, mas, de meu ponto de vista, nada é mais insosso do que a classificação de algo como “legal”.
O que se quer expressar com esta palavra?
Legal o seu trabalho!
É, legal!
Isto não é legal!
Pense, pode ser legal!
Nossa, que legal!
Legal, vamos lá!
Legal?
Legal!
Legal.
Estas são algumas das possíveis ocorrências para a palavra, mas que muito pouco podem dizer sobre o que se está expressando se não vier acompanhada da expressão facial, da entonação, dos gestos, do contexto etc. Qualquer uma das frases acima pode tanto ter valor positivo como negativo, porque, estritamente, o termo perdeu muito de seu sentido denotativo, que se relaciona à lei. Desta forma, legal é uma palavra quase vazia de significado próprio. Seu uso, então, descompromete quem a usa no que tange ao juízo de valor, porque pode dizer que quis elogiar tanto quanto quis menosprezar o que se está avaliando e qualificando por este adjetivo.
Não por menos, há um tempo, uma campanha publicitária contra as drogas vinculou o termo ao adolescente viciado, que, vazio de idéias, não tem nada mais interessante para dizer.
Espero que este texto não tenha merecido como classificação apenas um legal de você, leitor!
Escrito por Jovir Filho às 12h47
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